quarta-feira, fevereiro 01, 2006

A Biblioteca que não tinha Teto

- Zé, chegou livro novo! – grita Mané, carregando uma carroça recheada de
papelão, pela Avenida Prestes Maia, no centro de São Paulo.

- Chegou meu Garcia Marques? – pergunta Zé, no outro lado da avenida,
aproveitando o farol vermelho, para vender água e refrigerante no semáforo.

- Chegou esse não, Zé. Mas tem um novo Jonh Lee Carre e aquele livro que
você estava esperando o Seara...

- Qual? – pergunta Zé correndo para a calçada, o farol abriu.

- O Seara Vermelha do Jorge Amado.

- Legal! – responde satisfeito Zé – Onde você achou?

- Numa lixeira lá nos jardins, encontrei também toda a coleção do Harry
Potter. A molecada vai adorar.

- Sei, não, Mané – diz Zé, correndo de novo para o Semáforo – Essa molecada
deveria ler mais Monteiro Lobato.

- Sossega, Zé! – diz Mané, ajeitando um dos papelões que começava a cair –
Deixe eles lerem a J. K. Rowling, quem sabe eles não esbarram logo, logo
num Mark Twain. Você começou lendo Paulo Coelho. Lembra?

- Fala baixo, Mané!- grita Zé - Pega mal, meu.

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Notas: Esse texto foi baseado nas historia de Severino Manuel de Souza,56,
morador do edifício Prestes Maia 911, uma das principais favelas verticais
de São Paulo que montou uma biblioteca com livros achados no lixo e doados
por entidades assistenciais no subsolo desse prédio invadido pelo movimento
dos sem teto em 2002. É nessa biblioteca que centenas de crianças,
moradoras do prédio, passam o dia inteiro lendo e se divertindo; lugar
também, bastante especial para Lamartino Brasiliano, 38, que abastece o seu
acervo cultural, pegando emprestado os últimos “lançamentos” que Manuel traz
para a biblioteca. Lamartino adora Jorge Amado, Graciliano Ramos e Guimarães
Rosa e não vê a hora de reler Cem Anos de Solidão pela segunda vez. Ele só
não assume que leu todos os livros do Paulo Coelho.

Frank Oliveira
http://cronicasdofrank.blogspot.com

O Conto do Meio Copo

- Deus não existe – disse ela, chocada com as cenas que via na TV de um resgate de um bebê que fora jogado num rio. – Se Deus existisse, não permitiria que uma mãe fizesse isso com seu filho recém nascido – Completou irada, colocando o abandono da criança na sua lista semanal de desgraças urbanas.

Seu marido ouviu o comentário sem nada falar, sabia que ela esperava alguma resposta, mas era inútil argumentar. Já havia lido sobre o que ocorrera no jornal e sabia que o bebê estava bem e justamente por isso era que ele acreditava no oposto do que a sua mulher falara; ele sabia que aquele resgate milagroso era justamente a prova que havia um poder maior atuando sobre as nossas vidas. Para ele, tudo tinha a sua razão de ser, até as tragédias.

Ele não sabia explicar, mas por toda a sua vida, percebeu que as tragédias e os milagres sempre caminharam de mãos dadas e chegavam sempre a uma espécie de equilíbrio que nos empurrava pra frente; mas essa certeza intima, não é algo que se comente apenas que se sinta. Essa certeza é algo que carregamos conosco e que nos permite vivenciar ou observar essas tragédias com olhos de quem voa por cima e por não ver barreiras, entende o mundo como um todo.

Não adiantava convencer a sua mulher disso, nem muito menos ninguém; afinal há sempre quem enxergue um copo com água pela metade como um copo meio vazio e outros como um copo meio cheio. Através da lei dos opostos e dos diferentes pontos de vista, a humanidade em seu devido tempo caminha.


Frank Oliveira
http://cronicasdofrank.blogspot.com

Bebe resgatado no Rio Pampulha Posted by Picasa
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