quarta-feira, novembro 30, 2005


O Pastor das Flores/O Direcionador Posted by Picasa

O Direcionador

Seu nome era Zé das Flores. Era jardineiro da Praça da Igreja Matriz de São Bernardo do Campo. Amparando os canteiros, cortando as folhas, aguando as flores, Zé era conhecido por todos. Evangélico, não se importava em trabalhar nos arredores de uma Igreja Católica; sorridente, era o pastor das flores, Rei da grama.

“O Zé conversa com todo mundo, até com as plantas - conta o motorista de Táxi e acrescenta - É o único aqui que deve saber onde fica essa rua que você procura”.

- Seu Zé, boa tarde!- disse me aproximando.

- Boa tarde, filho. Aonde você quer ir?

Adivinho? Não! Seu Zé, alem de Jardineiro, ocupa o cargo de Direcionador de Pessoas. Conhece cada rua de São Bernardo como a palma do seu jardim.

- O Senhor conhece a Rua Tomé de Souza?
- Tomé de Souza – repetiu e três segundos depois respondeu – Pega a primeira à direita, depois a segunda à esquerda e sobe por ela. A Rua Tome de Souza é a terceira à esquerda.

É ver pra crer. Seu Zé sabia mesmo onde ficava a rua que nem o taxista conhecia. Rua que já estava registrada nas paginas amarelas da sua memória.

Tão logo agradeci, notei que outra pessoa surgia para pedir informação e outra e outra. Seu Zé continuou informando, com um detalhe: ele indicava a direção, sem deixar de fazer a sua jardinagem.

- Seu Zé – disse voltando a falar com o homem – Posso fazer uma outra pergunta?

- Pode perguntar – disse, sem tirar os olhos das flores.

- O senhor não se incomoda com tanta gente vindo pedir informação. Pelo que vi, é uma pessoa atrás da outra.

Seu Zé deixou de olhar as flores e me olhou com surpresa, mas logo respondeu:

- Não incomoda nadinha, filho. – disse Seu Zé sorrindo – Pelo contrario. Gosto de pensar que de alguma forma estou ajudando alguém a chegar ao caminho certo.


Frank
30 de Dezembro de 2005

segunda-feira, novembro 28, 2005

Ladrões de Sonhos

João veio do Rio, Jéssica de Minas. Conheci os dois na recepção de uma empresa de RH na Avenida Carlos Berrini. Fomos chamados até ali para uma entrevista de trabalho. O melhor de nos três ganharia o emprego dos sonhos e o salário das estrelas.
Pelo menos, essa era a proposta daquela empresa que havia selecionado os nossos cvs pela internet. João estava confiante, Jéssica nervosa e eu desconfiado.

A oferta era maravilhosa demais; o lugar muito perfeito. Muita pompa para uma vaga de supervisor de equipe. O nome da empresa me era familiar e não soava bem em minhas memórias. Não quis passar minhas suspeitas adiante, mas um instinto, uma voz interna parecia querer gritar em alerta: “É fria!”.

E era uma gelada.

Jéssica foi a primeira a entrar, ficamos eu e João conversando. Carioca da gema com roupa impecável e cara amassada, fruto de uma noite mal dormida na jornada de ônibus entre Rio e Sampa.

- Dormi muito mal! – dizia ele, com os olhos cheios de esperança em trocar a Cidade Maravilhosa por uma Sampa Enganosa que estava prestes a surgir a sua frente.

Quando vi Jéssica saindo da sala da entrevista tão rápido quanto entrou, não tive duvidas. Não havia alegria ou decepção nela e sim muita raiva. Era o “golpe da Agencia de Recolocação”.

Olhei para o meu amigo carioca e para os outros tantos Joãos, Franciscos e Jéssicas que esperavam e disse: “essa agencia é fachada. É mais uma agencia de
recolocação .”

Eles não entenderam e não se mexeram. Pelo olhar de João, percebi que ele ia ficar pra descobrir por si mesmo. Eu não ia ficar mais um minuto ali. Já tinha sido vitima de golpe assim antes, sabia que pagaria por um serviço de “coaching” que só existiria até o momento que o terceiro cheque caísse na conta deles.

Desci com Jéssica pelo elevador. Suas lágrimas desciam pelo rosto, mas a sua fisionomia era raiva pura.

- Eles me pediram dois mil reais – explicou ela – Dois mil reais para que eu tenha uma chance de disputar uma vaga para uma empresa que não tem nome. Como eles podem fazer isso? Por que não disseram que eles eram uma agencia de recolocação? Eu paguei um vôo de Belo Horizonte até aqui pra nada. – e continuou - Isso não se faz. Como eles conseguem dormir em paz sabendo que estão ganhando dinheiro enganando as pessoas?

Permaneci calado, mas sabia que eles dormiam muito bem com a cabeça sob seus travesseiros de dinheiro sujo, com a tranqüilidade de quem ganha muito roubando os sonhos de emprego dos outros. Porem, eu também sabia, que esse sono tranqüilo em breve iria se tornar pesadelo. Mais e mais profissionais estão acordando para esses golpes. Só aquela manha, dois sonâmbulos conseguiram despertar a tempo e eu espero que não só o João, mas todos os outros que estavam por lá, tenham conseguido sacar que agencia de emprego e RH só exige qualificação (e não dinheiro) dos candidatos que quer empregar.

28 de Novembro 2005

Frank

domingo, novembro 27, 2005


Ram Bahadur Banjan, "the New Buda"
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O Pai que falava musica com o Filho

A semana foi bem estranha. Noticias surreais pipocaram na mídia e em minha vida.

Um “novo Buda” surgiu no Nepal, na forma de um garoto que esta meditando a seis meses embaixo de uma arvore. O vaticano proibiu o show da Daniela Mercury porque a moça foi ou é estrela de um campanha de conscientização do uso da camisinha. Lula sendo ridicularizado (mais uma vez) por seu discurso new age no seu programa de radio, onde pede a popularização para ser mais otimista. Fora da mídia, um amigo me conta que finalmente conseguiu se comunicar com o seu filho autista, eles estão falando musica.

O falar musica para meu amigo surgiu quando ele percebeu que o menino que não se comunicava, gostava de musica e usava canções para explicar ao pai o que queria e sentia. Ele passou a usar essas canções como linguagem e suas caixas de CDS viraram dicionários, portais de linguagem com o garoto.

Incrível, não? Tão incrível quanto a igreja católica condenar o uso da camisinha num mundo em que Aids mata mais que a fome ou ridicularizarem o Presidente por pedir as pessoas que olhem pro lado positivo da vida. Não sou a favor do Lula e nem gosto de discutir política, mas prefiro acender uma vela a maldizer a escuridão e talvez seja por que esse mundo atual não sabe a diferença entre realistas e pessimistas que o moleque do Nepal calou-se para o mundo e esta em busca de seu Nirvana.

Também busco meu Nirvana e fujo (como o diabo foge da cruz) de gente que tenta contaminar a todos com seus discursos de fim de mundo. Por isso que de tudo que li e vi, termino ou começo a semana com a lembrança desse amigo falando musica com o filho, fato que me da esperança de que possamos um dia encontrar uma linguagem comum e nos tornamos realmente apenas um.


Frank

terça-feira, novembro 22, 2005

De Olhos Fechados

Manha de Terça-feira na Avenida Paulista, meus olhos escaneiam prédios e pessoas.

Eu vejo executivos correndo apressados e canteiros floridos. Observo a tudo pela janela do ônibus lotado de gente que brinca de sardinha e tentam desafiar as leis da física ocupando dois lugares ao mesmo tempo.

Vejo arranha-céus e camelôs com barraquinhas de café e bolo. Vejo o transito sair da ordem e começar a abraçar o caos. Infelizmente, vejo também que houve um acidente. Duas moças foram atropeladas e estão deitadas imóveis na avenida, enquanto os oficiais do Resgate tentam ajuda-las e ao mesmo tempo afastar a multidão.

Dentro do ônibus, a atenção e comentários tomam conta de todos.

- Foi culpa do motorista – palpita um passageiro.

- Elas que atravessaram fora da faixa – diz outra pessoa.

Ao meu lado, um velhinho ignora a tudo e fecha seus olhos. Pelo movimento dos seus lábios, desconfio que ora. Pela atitude daquele momento, onde o mórbido seduz os olhos de todo mundo, acompanho o velhinho e oro também.

Acidente em São Paulo é assim mesmo, enquanto uns atrapalham com curiosidade ou destilam comentários inúteis; outros rezam para que as moças se recuperem e para que acidentes assim não ocorram com tanta freqüência.

sábado, novembro 19, 2005


Ao Pai com carinho Posted by Picasa

Ao Pai com carinho

Ontem, pela primeira vez na vida, vi sua voz chorando.

Sua alegria habitual deu lugar a uma melancolia; o milagre do teu sorriso foi substituído por um lamento; sua voz risonha deu lugar a um grito de revolta por você não poder biologicamente ser pai.

Amigo, aprendi que ser pai é muito mais que biologia e química; ser pai é querer passar adiante tudo aquilo que há de bom dentro da gente. Lembra quando você me disse que se sentia um pouco pai ao assistir desenho dublado e jogar bola com os seus sobrinhos? Ser pai é um pouquinho disso.

É aprender a amar incondicionalmente. É devolver a bola que quebrou a janela porque já fomos filhos e tivemos as nossas bolas de futebol rasgadas por adultos que se esqueceram que já foram meninos.

Eu sei que para quem esta de fora é fácil dar palpite, mas medita nisso: o fato de você não poder gerar um filho, não significa que você não possa ser pai.

Ser pai é não ter medo da palavra “adotivo”. É lembrar que milhares de crianças foram biologicamente geradas e fisicamente abandonadas. É lembrar que elas anseiam pela chance de serem cuidadas; pois quem tem fome de família, não liga se pai é padrinho.

Você já ouviu falar por ai que mãe não é quem coloca filho no mundo, não é? Então acrescento, ser pai não é apenas gerar uma criança; ser pai é aprender a amar esses pequeninos que precisam tanto desse amor adotivo.

Certa vez me perguntei por que Deus permitia que tantas crianças fossem abandonadas no mundo; ontem você me deu a resposta e espero que a tenha também percebido e não tenha desistido do seu sonho de ser pai, que é dos sonhos, o mais bonito.

Frank

quinta-feira, novembro 17, 2005


Deixar Partir/Gaivotas sob o Rio Siena Posted by Picasa

Deixar Partir

De tão aguardada, quando enfim chegou; a recebemos de portas fechadas. Com certo rancor, com muita magoa; não queríamos que ela levasse o que julgávamos ser antes da hora marcada.

O Passageiro dessa jornada, da cama, cansado nos olhava e pelo olhar implorava “me deixem partir para a minha verdadeira casa”; analfabetos de bom senso e cegos de discernimento, entendíamos seu olhar como “quero ficar” e exigíamos que ele lutasse e não embarcasse naquela jornada que estava prestes a começar.

Percebendo que não compreendíamos o seu pedido, ele apenas um leve sorriso ensaiava, enquanto em toda a família o egoísmo disfarçado de amor reinava.

Nunca estamos preparados para morrer, menos ainda para a morte dos nossos amados aceitar; mas dava pra sentir que o passageiro queria seguir, mas não poderia ir, enquanto continuássemos implorando para ele ficar.

“Quem ama precisa aprender a libertar” era a mensagem que a morte tão repentinamente queria nos ensinar, mas como crianças emburradas, nos recusávamos a essa lição assimilar e prendíamos o Passageiro nas correntes do “nosso cuidar”, sem perceber que Quem o criou, tinha outros planos, que somente ele e ao Passageiro, dali em diante poderia interessar.

O seu sofrimento durou tanto quanto a nossa ignorância e seus olhos se encheram de esperança quando finalmente compreendemos o que não queríamos aceitar. O Passageiro então se despediu com um sorriso e entrou no vagão do trem rumo ao paraíso, deixando pra trás a sua lembrança em corpo caído.

Corpo caído, fotografia do corpo, para que pudéssemos lembrar que ele era mais que carne e osso e em suas veias havia algo a mais que sangue, que acabara de se libertar.

17 de Novembro de 2005
Frank

Blog com fotos das minhas viagens e crônicas inéditas:
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terça-feira, novembro 15, 2005


Namorados Posted by Picasa

A Dona dos Olhos Meus

Tinha um compromisso marcado naquele fim de semana. Um encontro que começaria no sábado à noite com um show da cantora Fortuna no Sesc Pinheiros e acabaria num domingo a dois. Estava nervoso, queria ficar e fazer bonito; afinal a moça merecia:bonita, inteligente, espirituosa e bem sexy; era o tipo de mulher que você gostaria de ter ao seu lado pelo resto da vida. Ela era mesmo sensacional, ela era a minha mulher.

Namoro à moça há oito anos (oficialmente, por sete anos, diz o anel no dedo da mão esquerda). Não brigamos muito, apenas ficamos de mal de vez em quando como qualquer casal adulto. Ela nunca quebrou os meus CDS por ciúme, nem eu nunca fui comprar cigarros na Mongólia, quando ela me convida pra ir fazer compras no Shopping. Ate onde é possível somos amigos; quando a amizade começa a atrapalhar, viramos amantes.

Paris só foi Paris, porque ela estava do meu lado. São Tome das Letras só virou uma cidade mágica pra mim, porque foi lá que a conheci e ela disse sim.

Não fui tolo pra esperar que ela dizesse não e um ano depois troquei os campos da Espanha pelas ruas de Itaquera; troquei o Caminho Sagrado de Compustela, pelos olhos cintilantes da minha menina. E foi entre as estações da Zona Leste e as linhas da Zona Sul, que unimos o Norte e Oeste; envolvendo os quatro cantos numa cerimônia de amor em que o sol e a lua foram os nossos padrinhos e a mãe terra abençoou.

Como não tinha muito a oferecer, prometi minhas asas; ela aceitou e me ofereceu o céu para que pudéssemos voar juntos alem das religiões, das fronteiras, da sociedade, dos tabus e da família.

Sim, oito anos passam correndo quando a esposa ainda é namorada e mesmo depois de quase uma década, ainda me olho no espelho, antes de encontra-lá e pergunto:
- “Espelho, espelho meu, me ajude a ficar atraente para a dona dos olhos meus. Se não ela acaba fugindo com algum Ricardão metido a Romeu.”

Por vezes o espelho ajuda, outras vezes me produzo todo e finjo que estou indo para o nosso primeiro encontro, como naquela noite que foi realmente um show. Ela nem ficou com ciúmes quando banquei o tiete e fui tirar fotos com a cantora Fortuna que autografava os CDs para os fans.

Domingo foi melhor ainda, porque esquecemos do mundo e ficamos entre um vídeo e outro, namorando e trocando olhares de amor, sem compromisso com os outros, sem atender ao telefone, sem almoço com a família ou cerveja com os amigos. Só eu e a dona dos olhos meus, sem pressa de fazer algo.

Estranho como ao lado de quem amamos fazer nada é fazer tudo. Todas as outras coisas se tornam pequenas, o mundo lá fora se cala diante do som de um abraço; e as declarações são feitas pelo olhar quando esposa e esposo olham um ao outro com olhos de quem quer namorar.

Frank

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segunda-feira, novembro 07, 2005

O Aparente e a Aparência

A cobradora da linha 4624 era uma moça loira, alta, cabelos longos e bem cuidados. Era tão bonita que os passageiros esqueciam o troco e as passageiras comentavam entre elas se a moca não estaria cobrindo a folga do tio.

A operadora de telemarketing que oferecia um produto qualquer era psicóloga e seu colega naquela central de atendimento era advogado.

O carteiro que enfrentava a chuva e o sol ardente, falava três línguas e estudava matemática no curso noturno.

O mendigo era poeta e completamente louco trocava seus poemas por moedas.

Personagens de uma São Paulo, onde nada é o que aparenta.


Moral da historia: Será mesmo possível julgar os outros ?


Frank

quarta-feira, novembro 02, 2005


Dia dos Mortos no Mexico Maiores informacoes e fotos no site: http://www.dayofthedead.com/
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Dia dos Vivos

Não quero voltar para as estrelas, antes de ver um mundo mais justo. Sei que parece utopia, sonho de hippie maluco; mas mesmo diante de tantos absurdos, ainda tenho fé nesse mundo.

Quero carregar comigo a lembrança de uma mulher assumindo o papado em Roma; quero ver o governo da China e o Dalai Lama apertando as mãos e concordando que terra não se possui, se cuida e se ama.

Quero estar vivo para ver o meu tio dar carta de alforria aos seus pássaros, depois de perceber que canto de passarinho livre é redondo, dentro da gaiola é quadrado.

Quero ler nos jornais que o ultimo homem bomba quase matou todo mundo com risadas ao explodir seu arsenal de piadas, pois compreendeu que um tornado de palavras é mais forte que uma chuva de pedradas.

Quero ver o moço no ônibus guardando o papel de bala no bolso ao invés de jogar pela janela; pois já compreendeu que seu pequeno gesto de respeito aos outros, faz uma grande diferença para a mãe terra.

Quero ver as pessoas trocando o Dia dos Mortos pelo Dia dos Vivos e como fazem os mexicanos,deixando pra tras cemitérios vazios e lotando ruas e avenidas; para celebrar que a morte não é tristeza, pranto e sim, apenas parte da vida e os mortos devem ser lembrados com alegria.

Quero acima de tudo, carregar no peito a imagem de crianças famintas por livros, com o olhar brilhante e mãos estendidas; esperando um novo conto, uma nova fabula, uma outra historia que lhes tragam esperança e alegria, pois somente a educação e o prazer da leitura servirão de ponte para que elas tornem meu sonho algo mais que uma utopia.


Frank
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